O Mundo de Snow

quarta-feira, abril 25, 2007

Os Cravos e o Dia da Liberdade


25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo


Sophia de Mello Breyner Andresen

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Utopia

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria

Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio

Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?


José Afonso

domingo, março 11, 2007

Try not to cry...



Um dos vídeos mais chocantes que vi nos ultimos tempos...

11 de Março de 2004



Três anos passaram...
Começaram agora os julgamentos dos processos decorrentes do massacre de Madrid.

As vitimas nunca esquecerão o horror por que passaram e querem justiça...
Mas será que algum dia será feita, efectivamente, justiça?

O terrorismo é algo com que os Espanhois se habituaram a viver... o medo faz parte do seu dia-a-dia.

Os milhares que sofreram com este e outros atentados terroristas dificilmente ultrapassarão o drama... é uma cicatriz que lhes ficará colada à alma até ao fim dos seus dias.

Eles nunca esquecerão... e o Mundo?
O Mundo, creio, com pesar, que apenas o recordará até ao próximo episódio de horror.

sexta-feira, março 09, 2007

Look into my eyes...

quinta-feira, março 08, 2007

Solo le pido a Dios...


Solo le pido a Dios
que el dolor no me sea indiferente,
que la reseca muerte no me encuentre
vacío y solo sin haber hecho lo suficiente..
.
Solo le pido a Dios
que lo injusto no me sea indiferente,
que no me abofeteen la otra mejilla
después que una garra me arañó esta suerte.
.
Solo le pido a Dios
que la guerra no me sea indiferente,
es un monstruo grande y pisa fuerte
toda la pobre inocencia de la gente.
.
Solo le pido a Dios
que el engaño no me sea indiferente,
si un traidor puede mas que unos cuantos,
que esos cuantos no lo olviden fácilmente.
.
Solo le pido a Dios
que el futuro no me sea indiferente,
desahuciado está el que tiene que marchar
a vivir una cultura diferente.
.
Solo le pido a Dios
que la guerra no me sea indiferente,
es un monstruo grande y pisa fuerte
toda la pobre inocencia de la gente.

(Leon Gieco)

sábado, março 03, 2007

O Homem


Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.


A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.


Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.


Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.


Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.


Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.


Como contar o seu gesto?


Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.


Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.


A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.


Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.


O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.


Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.


Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.


Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.


Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.


Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.


Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.


E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:


- Pai, Pai, por que me abandonaste?


Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:


- Pai, Pai, por que me abandonaste?


Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.


Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.


E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.


Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.


Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.


A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.


Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.


Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.



**




Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.



(Sophia de Mello Breyner Andresen, in Contos Exemplares)




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Sou um fiel admirador de tudo o que SMB escreveu ao longo de toda a sua vida.

Fico sempre impressionado com a beleza, a emoção e a simplicidade com que os seus textos nos abrem os olhos para as pequenas coisas que todos os dias nos passam em frente dos olhos sem as vermos.


Quantos de nós não passaram já milhares de vezes por este Homem?

Quantos de nós o viram?

E desses, quantos pararam ou voltaram o olhar um segunda vez?


Todos nos apercebemos da realidade cruel que se vive nas cidades que o Homem criou, essas cidades que todos os dias se tornam um pouco menos humanas, onde o Homem é cada vez mais egoísta... mas todos continuamos a ser empurrados pelo rio constante que é o movimento da vida nas cidades. É raro aquele que tenta remar contra a maré. E quando alguém o faz é olhado com desconfiança e, por vezes, mesmo com animosidade...


A vida nas grandes cidades é cada vez mais desumana... Mas o fascinio do Homem por estes grandes aglomerados de betão continua.


Sinto-me um ET... eu vou fugir da cidade por que tantos suspiram!

Eu sei que de vez em quando também sentirei o chamamento da cidade... não da vida na cidade, mas de algumas comodidades do espirito que hoje em dia ainda continuam muito restritas à cidade. Mas quando penso no meu recanto de mundo... aquele que escolhi... junto ao mar que me inspira, junto de pessoas que se preocupam com o vizinho do lado, onde se respira tranquilidade e onde as crianças ainda brincam nas ruas sem preocupações, acho sinceramente que esta mudança vai ser um novo recomeço.


Aquele que, até agora, era o refugio de fim-de-semana, onde juntava os amigos e para onde fugia quando necessitava de me afastar vai ser agora o meu habitat permanente. Os amigos vão continuar a aparecer ao fim-de-semana mas eu deixarei de partir com eles para mais uma semana na cidade que, nos últimos tempos, me começava a sufocar...


Dentro de duas semanas penso ter tudo preparado para este passo definitivo.

No escritório, está tudo preparado para que tenha que me deslocar apenas duas vezes por semana...

No meu novo lar, as alterações que tive de fazer no espaço estão quase terminadas...

A contagem decrescente iniciou-se...

Espero que esta seja a primeira de algumas mudanças na minha vida ;)

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Amor e Sexo




Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval

Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade
Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora

(Rita Lee)

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Caminhando pelo Mundo............VEGETAL e SÓ


É outono, desprende-te de mim.


Solta-me os cabelos, potros indomáveis

Sem nenhuma melancolia,

Sem encontros marcados,

Sem cartas a responder.


Deixa-me o braço direito

O mais ardente dos meus braços,

O mais azul

O mais feito para voar.


Devolve-me o rosto de um verão

Sem a febre de tantos lábios,

Sem nenhum rumor de lágrimas

Nas pálpebras acesas.


Deixa-me só, vegetal e só,

Correndo como rio de folhas

Para a noite onde a mais bela aventura

Se escreve exactamente sem nenhuma letra.


(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Eu...

Yo, yo mismo...
Yo, lleno de todos los cansancios
Cuantos el mundo pueda dar.
— Yo...
Al final todo, porque todo es yo,
Y hasta las estrellas, que al parecer,
Me salieron del bolsillo para deslumbrar niños...
Qué niños no sé...
Yo...
¿Imperfecto? ¿Incógnito? ¿Divino?
No sé...
Yo...
¿Tuve un pasado? Sin duda...
¿Tengo un presente? Sin duda...
¿Tendré un futuro? Sin duda...
La vida que pare dentro de poco...
Pero yo, yo...
Yo soy yo,
Y quedo yo,
Yo...

domingo, fevereiro 04, 2007

Fresh New Start